sábado, 21 de fevereiro de 2009

ARTE TRÁGICA


Por WANIA BITTENCOURT - Jornal de Santa Catarina (21/02/2009)

A enchente e os desmoronamentos de novembro em Blumenau viraram uma espécie de Guernica para os artistas locais. Assim como Pablo Picasso pintou, em 1937, o painel baseado em notícias sobre o bombardeio e o sofrimento na cidade espanhola, nos últimos três meses artistas blumenauenses retrataram a tragédia e o cenário que lembrava uma guerra em suas obras de arte.

O que viveu, viu e ouviu sobre a tragédia serviu de inspiração para o artista plástico Felipe Lobe. Morador do Bairro Vila Nova, quando ele percebeu a elevação das águas próximo ao apartamento, não teve dúvidas: recolheu tintas, pincéis e obras do ateliê, no andar térreo, e se refugiou no primeiro piso. Na mesma semana, a experiência virou quadro, seguido ao longo dos últimos três meses de outras obras. Das cerca de 50 peças que produziu nos últimos 90 dias, pelo menos 10 têm algum elemento relacionado à enchente – peixes, animais mortos, prédios atingidos, morros caindo e água.
– Foi algo que simplesmente fluiu, não foi algo pensado. Refleti também sobre o interesse das pessoas em ter obras sobre a enchente e acho que é uma forma de dar um tom de recomeço – comenta Felipe.

Quem também produziu uma obra que fluiu foi Clóvis Truppel. Com uma exposição agendada para dezembro, ele estava imerso no processo de criação quando ouviu no rádio, na semana da tragédia, que o morro do Belchior havia deslizado e soterrado famílias. Ao todo, seis das 12 obras do artista que estão em exposição na Fundação Cultural têm relação com o que se passou em novembro.

A mesma linha de pensamento segue outro artista: Bruno Bachmann. Enquanto convivia com o sentimento de medo, na Fortaleza, onde havia risco de desabamentos, o jovem desenhista colocava no papel suas percepções, quase como um diário. Nas obras Caos 1 e Caos 2, mostra prédios sendo atingidos, a falta de preocupação do homem com o meio ambiente e um pássaro estilizado, que simboliza o renascimento.

Quem também se inspirou em um pássaro – mais especificamente na Fênix – para mostrar a Blumenau pós-tragédia foram os artistas da Associação Blumenauense de Artistas Plásticos (Bluap). Dulce Paladini, Arlete Bondavalli e Mia Avila organizaram a exposição Phoenix Renasceu das Cinzas, Blumenau Ressurgiu das Águas, atualmente à mostra no Espaço Cultural da Câmara de Vereadores.

– A intenção quando optamos pelo tema, no final do ano passado, não era mostrar Blumenau destruída, mas a força no povo na reconstrução – explica Dulce.
Assim, os quadros retratam a família blumenauense, as festas feitas em prol da reconstrução da cidade, os lugares que continuam belos, entre outros momentos da retomada.

Literatura das águas

O principal poeta do Vale do Itajaí, Lindolf Bell, também inspirou-se em fatos locais quando compôs seus livros. E um dos principal deles, Código das Águas, foi escrito justamente após as enchentes de 1983 e 1984. Hoje há também quem se inspire nas águas do Rio Itajaí-Mirim.
– Não sei se pode ser chamado de inspiração. Mas é um motivo para escrever – comenta a presidente da Sociedade Escritores de Blumenau (SEB), Terezinha Manczak.

Segundo ela, logo que a energia voltou, dias após o 22 de novembro, ela começou a escrever algumas impressões da tragédia, pequenos textos, hai cais. Ao mesmo tempo que mandava suas produções por e-mail para amigos e colegas, começou a receber textos de outros artistas, como crônicas e contos. O resultado ganhou o nome de Relatos de Novembro e pode ser conferido no próprio site da instituição (
http://www.seblumenau.org/muralseblumenau.htm). Os associados cogitam a possibilidade de o material virar livro.

Ricardo Brandes é um dos colaboradores da seção, com poesias sobre a chuva. Mas não foi só na rima que traduziu o que se passou aqui. Há dois anos, Brandes trabalha em cima do livro Nino, Menino do Morro. A história do garoto que mora em uma casa que sofreu com deslizamento de terra e perdeu os pais, após a chuva de novembro, se torna ainda mais real.

– Vou ambientar um pouco da história nesse período de Blumenau – conta o autor.

Quem também usou os acontecimentos do final de 2008 como pano de fundo para um novo livro foi Maria de Lourdes Scottini Heiden. A professora, que dá aulas na escola que virou o maior abrigo de Blumenau, a EBM Vidal Ramos, usa fatos da vida real para incorporar ao livro Tempestade, com lançamento previsto para este ano:

– É uma história longa. Alguns capítulos acabam se desenrolando durante a enchente no abrigo da escola Vidal Ramos, inclusive a visita do presidente.

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